Sob a ditadura do espartilho
Por Laura Ferrazza de Lima
28/11/06
Dessa vez resolvi contar a história de uma das primeiras roupas íntimas: o espartilho. Ele é uma das peças do vestuário mais emblemáticas da história. Criado na Renascença com o objetivo de valorizar o colo feminino num sinal de sensualidade e lembrando que do peito da mulher vem o alimento do bebê, ele produzia, então, mães sensuais. Essa peça sofreu alterações conforme a época, ao longo dos tempos ele foi sendo apertado ou afrouxado. O seu uso era um sinal de status e elegância, por manter a coluna alinhada numa postura firme que impedia movimentos amplos.
Preferencialmente destinado às mulheres de classe abastada, por que era impossível trabalhar ou fazer grande esforço vestindo tal peça. No século XVII se colocavam espartilhos desde a infância nas meninas a partir dos quatro anos, costume comum nas cortes européias. O espartilho tem uma longa duração, surge no século XVI e vai ser abolido somente no século XX perdurando durante quatro séculos.
A partir de meados do século XIX o espartilho foi se estreitando sobre maneira, em fins do mesmo período e na primeira década do século XX a silhueta em “S” simplesmente deformava o corpo feminino, algumas mulheres tinham cinturas de 38 ou 40 cm, os órgãos acabavam deslocados do lugar, o estômago subia, a respiração tornava-se difícil, por isso ao menor esforço as mulheres desmaiavam.
(Exemplo da silhueta em "S")
Existem dois filmes que gosto de indicar sobre o assunto, ambos são clássicos. O primeiro é “E o Vento Levou”, um dos primeiros filmes coloridos de Hollywood, de 1939. A época representada são os meados do século XIX durante a Guerra Civil americana, um dos momentos áureos do espartilho e das saias volumosas conhecidas como crinolinas. Ele tem um ótimo figurino e várias cenas de espartilhos sendo ajustados, na protagonista Scarlet Ohara. O outro é um filme de Lucino Visconti chamado “O Leopardo”, boa parte dele se passa durante um baile do século XIX, e de certa forma debocha do volume das saias, que as mulheres chocam umas nas outras enquanto caminham ou dançam. Há uma cena que retrata uma quantidade enorme de desmaios por conta dos espartilhos muito apertados.
(Cena do filme "E o Vento Levou")
(Cena do filme: "O Leopardo")
Na virada do século XIX para o XX, os próprios médicos já estão condenando o uso do espartilho por ser prejudicial à saúde, existe um movimento mais forte na década de dez para abandonar a peça, principalmente por parte das mulheres mais arrojadas, o estilista Worth cria as primeiras peças que dispensam o espartilho, a moda não vai pegar até a primeira guerra. Esta última transformou a vida das mulheres, elas passam a atuar mais fora do lar, o que tornava o espartilho incômodo e desnecessário. Somente na década de 20 ele é abolido completamente.
(Espartilho no máximo de seu ajuste, o que causava deformações físicas)
Quer dizer ele vive reaparecendo, como lingerie, para ser usado no lugar de um top, por exemplo. Porém, agora sem desconforto e com muita sensualidade, como uma verdadeira peça fetichista.