Feminino ou Masculino? Quando as mulheres invadiram o guarda roupa deles...
Por Laura Ferrazza de Lima
04/01/07
Para nós o tal terninho já se tornou um traje até mesmo muito certinho e recebe novas leituras a cada estação, mas o que explodiu de um tempo para cá foi a roupa no estilo alfaiataria, imitando ternos masculinos, no corte das calças, com suspensórios, chapéus, tudo usado com muita feminilidade... Acontece que essa moda não é nova, não faz parte de uma supervanguarda da última década, mas vem desde o início do século XX e quiçá um pouco antes!
No início do século XIX, quando a silhueta estava mais enxuta e ainda tínhamos o corte império surgiram em alguns vestidos de inverno e casaquetos abotoaduras em estilo militar masculino, um pequeno nuance, logo soterrado pelas enormes nuvens de tecido que cercariam a mulher dos anos posteriores.
(Vestido do início do século XIX com abotuaduras em estilo militar)
Somente em princípios do século seguinte é que o guarda roupas feminino tomou emprestado cada vez mais peças do armário masculino. Na Belle Époque surgiram os primeiros traços de um gosto pelo masculino. Os automóveis exigiam capas que protegessem as roupas e essas tinham um feitio masculinizado, talvez porque se esperava que apenas os homens guiassem. O primeiro tailler, lembrava as vestes masculinas, composto de saia longa e casaco, primeiramente mantendo a silhueta em “S” em torno de 1903 e depois com uma saia tubular reta por volta de 1914. As mulheres burguesas passaram a utilizá-lo nos escritórios, enquanto as aristocratas nas casas de campo. Nessa mesma época as cores escuras começaram a aparecer com naturalidade na vestimenta feminina, como sinal de discrição elas já eram utilizadas há muito tempo pelos homens.
(Tailler masculinizado do início do século XX)
O período da Primeira Guerra fortaleceu a masculinização, como aconteceria depois durante a Segunda Guerra também. Devido a maior participação feminina no mercado de trabalho, por uma questão de praticidade e escassez de recursos a moda moldou-se a nova realidade. As sufragistas – mulheres que lutavam pelo direito ao voto feminino – tinham um estilo bem particular, usavam gravatinhas com camisas, como os homens, o que combinava bem com seu ideal de promover a causa da emancipação feminina.
Já na década de 20 a inovação vem nas estampas e tecidos antes exclusivos dos homens, como o tweed, e peças como o suéter, passam a fazer parte do repertório feminino, graças a ousadia de Coco Chanel. Aparecem vestidos com muitos botões em linha, como nos casacos masculinos e o uso por mulheres de gravatinhas estilo borboleta. Surgem as calças femininas em estilo pijama, inspiradas em odaliscas e também calças bufantes usadas com meias até o joelho para a prática de esportes.
Porém, foi somente nos anos 30 que as calças se popularizaram entre as mulheres, mas o que grita no estilo masculinizado dessa época são os ternos femininos de ombros largos usados com sensualidade e ousadia por estrelas como Marlene Dietrich, que apesar de escandalizar a sociedade de início logo passou a ser imitada. Nessa época é largo o uso da calça pantalona, bem como da bermuda e do short em ambientes litorâneos e de lazer.
(Marlene Dietrich divina em terno masculino nos anos 30)
A explosão do rock e do estilo rockbille nos anos 50 difundiu a calça jeans e a camiseta entre homens e mulheres. As garotas adotaram também calças mais justa como a cigarrete. Os anos 60 marcam a ousadia extrema, quando em 1967, Yves Sant Laurent lança uma versão feminina do smoking, um dos mais tradicionais trajes masculinos. A partir daí liberou geral, nos anos 70 e nos 80 o estilo masculino voltou a ganhar força por causa da inversão de papéis, com a disputa entre homens e mulheres no mercado de trabalho, a mulher procurou se afirmar através de uma aparência masculinizada conseguida através dos casacos com grandes ombreiras.
(Smoking feminino lançado por Yves Sant Laurent em 1967)
Hoje o retorno a uma inspiração masculina pode adquirir muita classe e até sensualidade, nesse jogo de indefinição de papéis, em que gravatas, suspensórios e risca de giz podem vestir uma diva.