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E a guerra levou...
Por Laura Ferraza de Lima
06/02/07

O trocadilho acima lembra o título de um filme? Isso não é por acaso, essa matéria tem relação direta com “E o vento levou”. Dessa vez resolvi escrever sobre a Guerra Civil americana e as mudanças que ela acarretou na moda do país. Para isso nada melhor do que assistir o filme produzido por David Selznick, no final dos anos 30. O roteiro se baseia no livro de mesmo título escrito por Margaret Mitchel dez anos antes e que fez um enorme sucesso entre os leitores americanos. O romance histórico utiliza personagens fictícios para contar a triste realidade da guerra que mais matou americanos e que ocorreu em seu próprio território, de 1861 a 1865. Porém, o conflito é somente o pano de fundo: o que está em destaque é a cultura sulista.

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(Cena de um baile no filme E o vento levou)

A disputa aconteceu exatamente por conta das diferenças econômicas, políticas e culturais do Norte e do Sul do país. Os nortistas eram na maioria protestantes, com pequenas propriedades agrícolas. Constituíram grandes cidades onde dedicavam-se principalmente ao comércio e a indústria. Já os sulistas eram majoritariamente católicos e grandes proprietários de terras, nas quais produziam matérias primas para a exportação.

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(Churrasco ao ar livre na fazenda, lazer antes da guerra)

É notório que a mão de obra escrava era largamente utilizada no Sul. A escravidão nessa região era uma instituição social antiga, um verdadeiro pilar da sociedade. O Norte, ao contrário do que muitos pensam, não era tão libertador quanto se imagina. Eles tinham escravos, em menor número, porque sua economia não necessitava deles. Contratavam mão de obra imigrante especializada, mas a preços baixos, por menos do que custaria sustentar um escravo. Além disso, tornaram-se abolicionistas para conquistar o voto dos negros e eleger um presidente do Norte.

Podemos dizer que enquanto, no Norte, a vida era mais burguesa, no Sul, ela era extremamente aristocrática. É essa vida de festas, rígidas convenções sociais e mucamas que apertam espartilhos que aparece na primeira parte de “E o vento levou”. A superprodução cinematográfica está entre as primeiras em tecnicolor e foi um dos maiores sucessos de bilheteria de todos os tempos.

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(Uma das cenas iniciais do filme, note o volume do vestido da atriz)

A função da cor no filme é exatamente destacar os cenários e, claro, os figurinos. Esses últimos, feitos com extremo cuidado, acompanham a época de forma perfeita. Os meados do século XIX marcam o período do romantismo – tempo de sentimentos exagerados, em que os artistas buscaram inspiração no passado. Isso atingiu também a moda. Os trajes mesclavam influências de diferentes momentos históricos. As mangas em forma de balão eram renscentistas, o decote amplo no estilo do século XVII e as saias eram larguíssimas.

O corpo feminino é coberto e decorado como um bibelô. A mulher é considerada o anjo da casa, escrava de uma moda rígida e formalizada. Devia mostrar-se frágil e etérea, imagem alcançada através da cintura estreitíssima, conseguida com o espartilho extremamente apertado. A natureza da sociedade sulista exigia que o homem se dedicasse às armas e as mulheres, ao lar. Elas deveriam ser figuras frágeis e dependentes e isso era reforçado pelo traje.

A heroína de “E o vento levou”, a inesquecível Scarlet Ohara, desde o início da trama demonstra uma personalidade que foge ao padrão da época. A princípio ela parece apenas uma moça mimada que se preocupa com futilidades, mas é determinada quanto a sua vida amorosa. Os figurinos dessa primeira parte da película são extremamente ornamentados, exagerados. Não faltam as crinolinas, as armações de arame abauladas que ajudavam a dar forma as saias gigantescas e ainda com babados. Durante a guerra, a realidade se modifica: os vestidos perdem o volume e ganham tecidos singelos e cores esmaecidas. Com o término do conflito, o glamour retorna, mas as saias são menos rodadas, os decotes mais altos, a mulher está mais madura e austera.

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(Figurino luxuoso do pós guerra tem menos volume na saia e mais maturidade no estilo.

A Guerra de Secessão, como ficou conhecida, modificou profundamente a cultura americana. O Sul perdeu sua aura aristocrática e se tornou, com o tempo, provinciano. As damas e cavalheiros que se vestiam à moda européia desapareceriam com o vento.

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(Cena durante a guerra, figurino mais simples)
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