O abandono do espartilho: radical ou gradual?
Por Laura Ferrazza de Lima
07/03/07
Bem, já escrevi uma matéria nesse mesmo espaço sobre a invenção e o uso de uma peça de vestuário muito famosa: o espartilho. Agora queria falar um pouco de como esse acessório indispensável por muitos séculos para formar a silhueta desejada foi sendo eliminado do guarda roupas feminino. Temos que nos remeter ao início do século XX, os anos 1900. Na França essa época ficou conhecida como Belle Époque, enquanto na Inglaterra considerava-se o período Eduardiano, sobre a influência dos gostos do príncipe Eduard. A mulher dessa época deveria ser madura, fria e dominadora em seu estilo. No traje isso aparecia no busto pesado, cujo efeito era enfatizado pelos chamados espartilhos “saudáveis” – esses evitavam a pressão do abdômen – mantinham o corpo rígido e ereto na frente, levantando o busto e jogavam os quadris para trás. Assim criava-se a famosa silhueta em “S”.
(Vestido de chifon e seda, com silhueta em "S", colo alto)
Durante a mesma época cresce a influência do corte masculino para as roupas femininas em estilo costume. Isso se deveu ao considerável número de jovens das classes médias que trabalhavam como governantas, datilógrafas e balconistas. Era impossível exercer tais funções usando vestidos muito elaborados.
No ano de 1908 a silhueta feminina começou a ser ligeiramente modificada, a forma abandonava um pouco o modelo “S”. Sem precisar avolumar tanto o busto e jogar o quadril para trás surgiu um vestido considerado em estilo império – apesar de muito diferente desse estilo original da época de Napoleão. Ele produzia um efeito de estreitamento dos quadris, traço ressaltado pelo uso de chapéus maiores.
O ano de 1910 marcou a mudança fundamental, graças a uma onda de orientalismo que invadiu a moda. Os responsáveis por essa mudança foram os figurinos do balé russo e o estilista Paul Poiret, que desejou libertar de vez a mulher do espartilho. As mudanças atingiram as cores que passaram dos tons pastéis para outros mais vivos e fortes. As saias eram afuniladas permitindo passadas muito pequenas. Algumas mulheres usavam até mesmo um elástico entre os dois sapatos que ajudava a limitar o tamanho dos passos. O contraste seguia sendo os grandes chapéus.
(Vestido de noite Paul Poiret 1910 - sem espartilho)
Em 1913 surgiu o decote em V, outro escândalo para a época. As mulheres usavam agora uma saia longa e uma sobresaia mais curta, ambas de corte reto. A chegada da I Guerra Mundial torna as roupas menos extravagantes e mais práticas. Passa-se a usar apenas a sobresaia de corte simples. Esse período abafou a moda e pouco há o que se registrar até o final do conflito. Uma coisa ficou posta: nada mais de espartilho, considerado a prisão feminina de tantos séculos e que ia contra o novo estilo de vida. A mulher do pós-guerra é ainda mais liberada, sobe as saias e corta os cabelos, é a revolução dos anos 20, assunto para outra matéria.
(Vestido de noite de 1913 - extremamente luxuoso)
(Conjunto John Redfern 1915 - Traje simples do período da Guerra)